agosto 22, 2023

E quando eu me for...

  E quando eu me for não me guardem saudade… Não se recordem de mim. Para mim um começo e sem dúvida, para vós, um fim. 

 Queimem as minhas roupas usadas e corpo imundo deste mundo. Deixem a minha alma correr nua por entre corpos celestes, livre de preconceitos e orações. Deixem-me ser um todo, deixem-me ser por completo. Sentir o que finalmente sou. 

 Longe de um corpo e longe de olhares, do que outrora fingi ser… Ingenuamente feliz! Sem relógio para ditar para onde vou e livre das correntes deste mundo físico e superficial. Sem medo, sem uma história cíclica que detém o dever de ser cumprida, uma e outra vez.

 A vida é uma dádiva, é um facto! No meio de quatrocentos triliões de probabilidades, tivemos a ínfima sorte de ter nascido… Mas uma vida em direção à morte não me parece uma vida digna. Crescer com a ideia que não há tempo a perder, porque este urge e é escasso, deturpando assim o sentido da vida.

 “O que queres ser quando fores grande?” — Com certeza, é uma pergunta que te recordas. Para mim, esta questão é, não mais que uma limitação. Uma questão que inconscientemente nos obriga a interiorizar a ideia de que só podemos ser uma única coisa até ao nosso último suspiro. Um “tens de ser” eminente quando na verdade Ser, é apenas um conceito que ainda te é desconhecido.

 No meio de teorias e crenças incutidas, procuramos propósito… Damos pelos anos passar e vemos este invólucro deteriorar-se, o nosso prazo de validade sempre alerta. E eu recuso-me a crer que só existo neste mundo. 

 Por isso digo-vos… 

 Quando eu me for, quero que saibam que o meu tempo de gestação chegou ao fim… Celebrem o meu nascimento, a minha existência enquanto ser imortal e omnipresente, um ser constante e sem idade.

 E deixem-me apenas Ser… 

Sem comentários:

Enviar um comentário