Queimem as minhas roupas usadas e corpo imundo deste mundo.
Deixem a minha alma correr nua por entre corpos celestes, livre de preconceitos e orações.
Deixem-me ser um todo, deixem-me ser por completo.
Sentir o que finalmente sou.
Longe de um corpo e longe de olhares, do que outrora fingi ser… Ingenuamente feliz!
Sem relógio para ditar para onde vou e livre das correntes deste mundo físico e superficial.
Sem medo, sem uma história cíclica que detém o dever de ser cumprida, uma e outra vez.
A vida é uma dádiva, é um facto! No meio de quatrocentos triliões de probabilidades,
tivemos a ínfima sorte de ter nascido… Mas uma vida em direção à morte não me
parece uma vida digna. Crescer com a ideia que não há tempo a perder, porque
este urge e é escasso, deturpando assim o sentido da vida.
“O que queres ser quando fores grande?” — Com certeza, é uma pergunta que te recordas. Para mim,
esta questão é, não mais que uma limitação. Uma questão que inconscientemente
nos obriga a interiorizar a ideia de que só podemos ser uma única coisa até ao
nosso último suspiro. Um “tens de ser” eminente quando na verdade Ser, é apenas
um conceito que ainda te é desconhecido.
No meio de teorias e crenças incutidas, procuramos propósito…
Damos pelos anos passar e vemos este invólucro deteriorar-se, o nosso prazo de validade sempre alerta.
E eu recuso-me a crer que só existo neste mundo.
Por isso digo-vos…
Quando eu me for, quero que saibam que o meu tempo de gestação chegou ao fim…
Celebrem o meu nascimento, a minha existência enquanto ser imortal e omnipresente, um ser constante e sem idade.
E deixem-me apenas Ser…

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