setembro 19, 2023

Solidão vs Solitude

Em tempos isolei-me por me sentir só, incompreendida e abandonada de qualquer réstia de semelhança ao outro, a solidão inevitavelmente surgiu.
 O ato de inconscientemente nos isolarmos porque já nos sentimos sós, por falta de amor-próprio.
 Lembro-me bem dessa fase da minha vida, foi o ano em que completei o meu quarto de século. Um ano atribulado, um ano em que era impensável ouvir-me ou estar na minha presença. 
 Na altura vivia num quadrado mínimo em Campo de Ourique e o espaço era demasiado pequeno para mim e para os meus tormentos na altura. Os pensamentos destrutivos e de autocomiseração cercavam-me e não tinha para onde fugir, por isso mal parava em casa.
 Trabalhava o máximo que conseguia e quando não estava a trabalhar, bem, quando não estava a trabalhar, estava a beber. Bebia até estar suficientemente intoxicada para poder chegar a casa e enterrar os meus problemas na almofada, e assim o fiz durante vários meses da minha vida...
 Não conseguia viver comigo, com quem era, e mais que tudo, deixava-me afogar no pensamento de que aquilo era tudo o que alguma vez conseguiria ser. Focava-me naquela rotina miserável e dela alimentava-me, jamais me queria ouvir pensar e assim, fui adiando a minha vida.
 Gosto de chamar a estas fases menos boas da vida fases de luto. O choque inicial, a fuga no sentido oposto ao que nos é conveniente, a autossabotagem que surge das nossas inseguranças e tristeza, a solidão e o acordar para a vida. 
 Percebi que criava outro problema e decidi dar-me uma oportunidade, decidi ouvir aquilo que tinha para me dizer. A partir daí tem sido uma aprendizagem constante. A idade foi somando um e outro ano, amizades momentâneas foram desmascaradas, uns tantos amigos passaram a dois ou três e a solidão deu lugar à solitude.
 E como eu gosto da minha solitude, como gosto de estar comigo...
 É engraçado como a vida nos mostra que por vezes o nosso foco está em meras futilidades, como nos faz ver que conexões são reais e quais serviram apenas o seu propósito. Quando nos consciencializamos desta dinâmica concluímos que somos felizes com aquilo que temos, com quem permaneceu e essencialmente connosco.
 A solitude é um ato de isolamento diferente, é quando nos afastamos não para estarmos sós, mas para estarmos na nossa companhia. Faz-nos debruçar sobre quem somos, sobre o nosso propósito e permite-nos ter não mais que amor e apreço por nós.
 Permite-nos escolher a nossa realidade longe de medos e inseguranças, é o ato consciente e egoístico de nos priorizarmos sem pedidos de desculpa.
 Não troco os meus momentos por nada deste mundo, o tempo que passo a desenhar ou a escrever, os picos de euforia em que só me apetece pular e dançar, os momentos mais serenos de reflexão e aqueles em que não me apetece fazer absolutamente nada! 
 Hoje consigo perceber que a minha energia é demasiado preciosa para ter de me encaixar naquilo que é o padrão social, muito menos nos dias que correm. Agora percebo o verdadeiro significado do provérbio "Só faz falta quem cá está". 
 Permiti-me despir o velho e vestir o novo, a solidão acabou por dar origem a uma inesperada crisálida de onde nasceu esta solitude que tanto amo.
 E não é essa a metamorfose mais bonita de se viver?!