Eram oito horas da manhã de quinta-feira e o despertador mais uma vez invadia o sonho. Desta vez não fiquei particularmente chateada, ainda que não tivesse acordado por mim, acordei especialmente bem disposta. Apressei-me a abrir as persianas e a deixar o sol entrar, espreguicei-me no parapeito da janela tal e qual um gato e fiquei a contemplar o limoeiro que tenho no quintal por alguns minutos.
"Café! Preciso de café!" - Pensei. E lá fui eu fazer o café de antigamente, aquele café de cafeteira cujo aroma se espalha por toda a casa. Todos os dias o faço e todos os dias sou levada a uma memória da minha avó, ali, sentada no sofá, molhando o seu papo seco na caneca e comendo-o deleitosamente. É a este conforto que me sabe o meu primeiro café da manhã.
Quinta-feira é também dia de terapia, duas por mês no horário da manhã, por isso, após beber o meu café tranquilamente, comecei-me a despachar para sair de casa. Uma hora depois já me encontrava no escritório do meu terapeuta, pronta para abordar as conclusões a que tinha chegado durante a semana. Apesar do tema abordado ter sido maioritariamente tristeza, esta sessão foi de longe muito mais leve que a anterior e não pesou na minha boa disposição.
Umas boas horas do dia já haviam passado e após almoçar segui para casa. Ia no autocarro e numa das paragens deparei-me com uma imagem, uma floresta, livre de ‘slogans’ e promessas de uma sociedade consumista, estranho. As árvores eram altas e o sol atravessava os seus grandes troncos, quebrando-se em vários fechos de luz e sombra. Não me pareceu acaso, ou pelo menos assim o quis entender.
Não é isso que somos? Um todo que se vai quebrando em luz, onde o único propósito da sombra é manter o equilíbrio daquilo que somos.
Uma sombra que metaforicamente representa a tristeza de que falava com o meu terapeuta, da qual todos fogem e ninguém quer sentir. A tristeza deve ser sempre saciada, sem tristeza não há artista, não há criação, não há beleza. Há apenas uma fachada, uma parte de alguma coisa.
Como uma criança que se julga invisível, esta insiste e resiste, gritando cada vez mais alto. E se a ouvirmos? E se não fugirmos e a abandonarmos? Há que dar voz ao que dói, há que o sentir e deixá-lo ser. Uma dor bonita de se viver, de perceção e aceitação, com todos os seus ciclos, uma dor que se transforma e nos transforma, é tudo e apenas isso.
Como seria viver sem esta parte de mim? Viver num constante estado de felicidade parece-me algo quimérico. Por vezes pergunto-me se existirá alguém que viva assim e logo me apresso a julgar - Uma triste alma, vivendo num constante estado de negação, ainda não se encontrou! - Acredito que muitos se percam assim, num mundo onde o que se tem, vale mais do que se é, vivendo compulsivamente de descargas momentâneas de endorfinas e dopamina para que esteja sempre tudo bem, para que a felicidade nunca os abandone. Contudo, nada dou como certo, é também possível que sejam realmente felizes, e ainda bem se assim for.
A mim, o que me mantém é saber que tudo são momentos, que felicidade vai e felicidade vem, basta-me desfrutar da sua companhia enquanto esta se aporta na minha vida. Um simples pôr do sol, uma trilha na natureza, a areia quente da praia onde enterro os pés ou até mesmo a fria, numa noite de lua cheia onde tudo o que se ouve é o rebentar das ondas à beira-mar, o contemplar do mais belo que vive neste mundo.
O silêncio confortável com quem nos é querido, um pequeno gesto de apreço e um abraço onde encontramos conforto. É assim que me drogo e é disso que me alimento, sem nunca desprezar os dias de chuva e as noites frias, também esses são essenciais.
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