A imagem é familiar — esguia, cabelo comprido, olhos castanhos, pequenos, rasgados e atentos, marcados pela juventude que já passou — e, ainda assim, há algo que escapa. Algo em mim muda sem cessar, e o reflexo já não sabe quem devolver.
É do lado de cá que me perco, pois vejo-me com olhos alheios. Julgo-me com impetuosidade, sob o peso de preconceitos enraizados, presa entre o que sou e o que exijo ser. Questiono-me incessantemente sobre a minha suficiência e, sempre que me sinto aquém, condeno-me em silêncio.
Quando o olhar atravessa o espelho, algo me confronta. Vejo-me com nitidez — mas nunca inteira. Essa dissonância perpetua a crença de que devo ser algo mais do que sou, deixando-me presa à decepção constante de quem não encontra quem procura — alguém inteiro.
Agora que penso nisso, nunca o fui. Nunca conheci ninguém que o fosse. E se o segredo for nunca chegar a sê-lo? Talvez a beleza esteja justamente no que se é, por breve que seja.
Tudo o que me rodeia é efémero, a seu tempo, e eu não sou diferente. Quantas de mim viveram para poder morrer? Quantas sucumbiram à falta de propósito? Quantas viraram parte de mim, mesmo sem saber? Muitas, perdidas pelo caminho, aguardam regresso, silenciadas pela urgência de ser outra. Umas esperam com raiva; outras, com ternura.
De todas, há uma que persiste — a que me deu origem. Inocente, presa num tempo que nunca a largou, em guerra com o presente. Às vezes, perco-a no meio de tantos rostos meus, mas ela regressa sempre, sedenta de amor e implorando para ser ouvida.
Tão pequena e tão resiliente, escudeira por necessidade, não por escolha. O escudo, bem maior que ela, protege-a, mas também a isola. O elmo cega-lhe a visão, e a espada, afiada como a dor, por vezes corta demais.
Travou inúmeras batalhas sozinha, muitas das quais nem me lembro. Mas a armadura pesa e — não é que faltem forças — já não há vontade de lutar. Ela quer ir brincar, e eu também.
Aproximo-me, peço-lhe que dispa a armadura e confie em mim. Nem sempre ela se rende à pressa ou à pressão e, até que o desejo de liberdade supere o instinto de proteção, o caminho é longo. Porém, encontramo-nos sempre aqui, nas fronteiras cálidas do coração.
É nesse reencontro, onde lhe falo e me aceito, que retorno ao espelho. Não para me medir, corrigir ou decifrar — mas para tentar ver-me, enfim, sem me procurar. Mas o reflexo falha-me. Lacan chamou-lhe o momento da alienação: quando nos vemos fora de nós e começamos a viver dentro dessa imagem, a moldar-nos ao que achamos que vemos — e que está longe de representar a multiplicidade do que somos.
Espelho meu, espelho meu… se és só reflexo, quem sou eu?
Cada vez mais acredito que nunca saberei ao certo.
Talvez a essência não se encontre; talvez apenas se habite.

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