Presa entre o que foi e o que poderia ter sido, fecho os olhos. Talvez tudo se torne mais claro.
Os pensamentos correm confusos, procurando escapar. Chocam e atropelam-se, tentando apaziguar o que sinto. A mente — viciada em ordem — exige sempre sentido. Foi assim no início e mantém essa busca até ao fim.
As conversas repetem-se, palavra por palavra, como se miraculosamente fossem ganhar outro significado — um mais fácil de abraçar.
“E se as minhas palavras fossem outras?”
“E se eu tivesse escolhido ficar?”
“E se ele tivesse ficado?”
Sinto-me encurralada em momentos cíclicos que nunca existiram. Porquê? Revivo e crio momentos na minha cabeça em busca de me sentir amada e tento encontrar o erro para justificar o desfecho como certo. Nas possibilidades infindáveis que surgem, percebo que todas me levam de volta ao início, e o final mantém-se, inerte e inabalável.
A cada “e se”, percebo que procuro amar uma vez mais… e acabo por perder novamente.
A verdade é que o amor não respeita estratégias e, embora tenha consciência de que nada se perde nesta vida, não há como evitar o luto que o coração faz — e não seria justo negar-me tal sofrimento.
Nunca achei possível amar sem depender — talvez por isso me tenha trancado tanto tempo na minha cabeça — mas, naquele dia, essa percepção mudou.
E assim termina a minha procura. Cessam as vozes que ecoam na mente de outro. Não há culpa em partir quando a compreensão nos falta. E, por fim, o amor que ansiava encontrar em recordações e sonhos desperta em mim.
Que dor agridoce, esta minha… Por estranho que pareça, faz-me sentir viva! Mais consciente do que quero viver. Nunca pensei que a lucidez pudesse chegar assim — serena, sem o sussurro inquieto dos medos, sem o nevoeiro das incertezas a toldar-me os passos, sem sentir se fui ou não suficiente.
Aquilo que outrora me pareceu absurdo tornou-se agora o que mais pulsa em mim: a vontade de amar de novo, não por carência, mas por escolha. Mesmo que possa doer uma e outra vez, quero ser capaz de amar — de forma inteira e intensa, como só eu sei.
Quem diria que a mágoa pudesse, um dia, trazer esta quietude — não como ausência de dor, mas como aceitação daquilo que foi.
Que o próximo capítulo me encontre assim: mais leve, mais lúcida, e que me traga tanto ou mais do que este me ensinou.
Obrigada.

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